sábado, 29 de abril de 2023

O Pastor e o Guerrilheiro

Em seu novo filme, o diretor José Eduardo Belmonte traz de forma mais direta o tema da ditadura militar. Sem manter uma ordem cronológica, vai até a década de 1970, quando um guerrilheiro comunista se encontra na mesma cela que um cristão evangélico, preso por engano. Em meio a torturas e conflitos ideológicos, eles se ajudam e marcam um encontro para o réveillon de 2000. Nos últimos dias do milênio, Juliana, ativista estudantil e filha ilegítima de um coronel que acabara de se suicidar, é surpreendida com uma herança deixada para ela. Por meio de um livro encontrado na casa do coronel, ela descobre que seu pai foi o torturador dos dois presos.

Apesar da contundência do tema, os anos de chumbo servem como pano de fundo para permear esses caminhos dos protagonistas. O filme, claro, tem substância. Mostra a união de dois prisioneiros, marcada justamente por suas diferenças políticas e religiosas. Traz o sentimento de culpa de quem fez parte do regime militar. Mesmo assim, O Pastor e o Guerrilheiro não carrega em si um traço meramente político. A condução da trama, com histórias paralelas, encontros e desencontros, faz a obra se aproximar de um romance. Belmonte mantém sua postura crítica em relação ao país, mas conclui um filme menos orgânico em comparação com seus primeiros longas. 


Morte a Pinochet

Com o sucesso do oscarizável Argentina, 1985, chega ao streaming a versão chilena sobre o período da ditadura militar. Em setembro de 1986, um grupo de jovens criou um plano para matar o ditador Augusto Pinochet. O professor de educação física e integrante da luta armada Ramiro, a psicóloga Tamara, que abandonou a família para viver na clandestinidade, tornando-se comandante da Frente Patriótica, e Sasha, nascida na favela de Santiago, marcam o ataque armado para uma tarde de domingo. 

Baseado na história real de um ataque fracassado por um braço armado do Partido Comunista Chileno, o filme acompanha o clima tenso de todo o planejamento da ação. Diferentemente do filme argentino, que insere alguns diálogos cômicos para dar um ritmo mais leve, aqui temos a seriedade como norte do começo ao fim. O diretor Juan Ignacio Sabatini não dá trégua, trazendo uma sensação quase de tempo real. Embora trate de um assunto importante e pouco explorado, o filme exagera no tom sisudo. Opta pela secura e objetividade, o que é um bem para a arte. Mas corre o risco de deixar seu trabalho um pouco cansativo.


sexta-feira, 14 de abril de 2023

Desaprendendo

A partir da próxima segunda-feira a gente comemora a Semana do Índio. Mas não podemos mais chamar índio de índio. Índio é quem nasce na Índia. Devemos trocar por indígena. Ou povos originários.

Também não podemos mais falar sobre morador de rua. Rua não é moradia. O correto é, em 2023, pessoa em situação de rua.

Já nem sei mais como devo me referir aos indivíduos de raça negra. Antigamente, chamá-los de preto era ofensivo, quase um palavrão. Hoje me parece que é um termo mais aceito. Assim como, creio eu, não deve pegar mal citar africanos ou afrodescendentes. O problema é quando queremos nos referir ao povo miscigenado, ou seja, a maioria da população brasileira. Antes a gente recorria a eufemismos, vocábulos mais brandos. "Moreninho" hoje, nem pensar. Mulato, embora aceito pelo vernáculo nesse sentido, vem sendo proibido pois faz uma analogia aos negros escravos que conduziam as mulas dos patrões. Ou traz a semelhança dessa palavra como um cruzamento de espécie animal. Sei lá. E não dá pra chamar um mestiço de mula. Nem de vira-lata. Se não me engano, pardo parece ser um termo aceito e não ofensivo. Isso hoje. Amanhã é capaz da Associação Internacional dos Gastronomistas vetar seu uso por fazer lembrar o molho pardo, rebaixando o indivíduo de tom azeviche a um mero ornato ao paladar.

Também não podemos mais usar as simbologias da nossa língua que evocam outros campos semânticos. Mesmo que a cor negra possa servir de metáfora para a noite, as trevas, a escuridão. "A situação está preta", por exemplo. Esquece. Proibidíssimo. O lado negro da força foi substituído pelo lado obscuro da força quando a Princesa Léia ainda era viva.

Pouco tempo atrás, uma integrante de uma comunidade de redes sociais trouxe um texto falando sobre os perigos de se aplicar, hoje em dia, o uso da locução criado-mudo. Isso trazia os tempos da escravidão, em que os negros serviçais trabalhavam nas casas dos senhores de engenho desde que ficassem absolutamente calados. Caso contrário, seriam severamente castigados e forçados a voltar a trabalhar na lavoura. Era mais ou menos isso. Esse texto sugere que troquemos por mesa de cabeceira ou algo que o valha. Até aí, tudo bem. Mas estamos no inóspito ambiente das mídias sociais, lembra? Nossa amiga foi rechaçada, avacalhada. (Avacalhada pode? Não faz lembrar o ruminante bovino leiteiro?). Comentaram que isso é tudo mimimi. Ou mumumu, sei lá. Os mais exaltados trouxeram verbetes ainda piores. A tal ponto de deixar a Dercy Gonçalves ruborizada. Claro que nossa amiga, que apenas quis repassar uma linha de pensamento sem tomar partido disso, se sentiu ofendida e preferiu sair da insolente comunidade.

Também não sei como me posicionar diante de um homossexual. Bicha antigamente era quase como "bom dia", de tão leve. Hoje não é mais. Veado então, é crime inafiançável. Só os veados podem chamar veado de veado. Gay me parece um termo isentão. Mas a Língua Portuguesa é muito rica. Se ficarmos apenas em dois ou três palavras é como se estivéssemos jogando dinheiro fora. Eu queria muito continuar usando fanchono, boiola, baitola, fresco, enrustido, sodomita, pederasta, maricas. Definitivamente, não posso. Além de darem um tom pejorativo ao discurso, generalizam demais essa orientação sexual. Com tantas variantes e subvariantes, que quase ocupam o teclado inteiro, precisamos ser mais específicos ao nos dirigirmos a uma pessoa que, por exemplo, supostamente, hipoteticamente, nasceu homem, se veste de mulher, está na fila de cirurgia do SUS, mas odeia fazer sexo. E orientação sexual também me deixa um pouco confuso. Um homossexual não é "orientado" a ser gay. Isso é meio coisa de coach. Também não é uma opção sexual, pelo contrário. Ninguém "opta" por seguir uma determinada linha sexual, como se isso fosse um partido político. Ou clica na opção "correta" dentre várias alternativas possíveis, como se fosse um exame de vestibular. A sexualidade de cada um está diretamente ligada aos impulsos, aos desejos. Taí... desejo sexual. Acho que doravante vou começar a usar essa terminologia.

Puta. Outra palavra a ser banida do meu repertório vocabular. É um dos termos que mais tem sinônimos no dicionário Aurélio, junto com cachaça. E praticamente todos foram vetados, a não ser que você queira ganhar uma legião de haters. Difícil imaginar, na nossa linguagem binária do futuro quase presente, como devemos evocar as prostitutas. Mulher de vida fácil, com certeza não. Não deve ser nada fácil ficar trepando por vários minutos debaixo de um gordo peludo, suado e fedido.

Por falar nisso, gordo é outra palavra que atravessou o sinal amarelo. Se por acaso alguém fizer uma leitura apressada deste meu opúsculo, coisa que mais acontece nas eras do read fast, die young, é provável que eu seja denunciado por gordofobia. Obeso talvez seja o substituto mais testado e aprovado pela Liga das Senhoras Católicas. Pelas comissões, tribunais e juízes do Facebook. Mas então, o que fazer com opulento? Anafado? Adiposo? Rotundo? Chorudo? Gorducho, leitoado, balofo? Joga-se tudo no lixo, bem como embalagem de bacon em tiras?

No começo do ano, tive sérias dificuldades no diálogo com uma atendente de banco. Recebi uma carta (sim, carta impressa, coisa que também deve cair em desuso, junto com quase todos os nossos alfarrábios linguísticos) sobre meu plano de previdência privada. A boa notícia: eu já posso começar a receber os dividendos dessa longeva contribuição. A má notícia: isso denota o quão estou velho, desgastado, caquético, senil, aposentado, tão inútil pra sociedade quanto os verbetes supracitados. Deduzi que o que deveria fazer é resgatar os valores para ter direito ao benefício. Só depois de muita conversa truncada entendi que resgate é uma coisa, migração é outra. O correto seria transformar o plano em renda. Daí fiquei me lembrando da época em que trabalhava numa agência de Propaganda com foco em criação de programas de fidelização. O que a gente mais falava era resgate de pontos. Coisa que todo mundo entende. Desde um sócio do programa Smiles até o juntador de Stix do Pão de Açúcar. Até que num belo e formoso dia um dos clientes entendeu que a gente devia mudar tudo. Resgate é uma palavra que remete a socorro, emergência, SOS, gente ferida, gente morrendo.

É deveras complicado pra mim cancelar lexemas para não ser cancelado. Eles sempre foram meus melhores amigos. Não consigo escrever por subterfúgios. Por abreviações consonantais. Por emojis. Não sei mais como me dirigir às pessoas, já que entramos na era do index palabrorum proibitorum. Perdemos completamente nossa identidade como indivíduo e como sociedade. Já que esse compêndio foi condenado e julgado à prisão perpétua, rogo para que ao menos recebam um funeral digno antes de agonizarem no calabouço do ostracismo e do desprezo.


quarta-feira, 29 de março de 2023

Skinamarink: Canção de Ninar

Vendido como filme de terror, e viralizado nas redes sociais, o primeiro longa do diretor canadense Kyle Edward Ball mais promete do que cumpre. Tudo é muito sugerido, não há cenas explícitas. Pelo contrário. Analisado friamente, mais parece uma colagem de imagens aleatórias.

Tudo se passa no interior de uma casa, à noite. Dois irmãos pequenos cochicham entre si porque acham que existe uma ameaça maligna em busca deles. Objetos da casa somem de repente. O único contato com o mundo real, perceptível ao espectador, é uma TV ligada passando desenhos animados antigos. 

Se por um lado o diretor escapa das fórmulas prontas do gênero, que traz à exaustão rostos deformados e muito barulho repentino pra criar o susto, por outro ele derrapa na falta de consistência e coalisão entre as cenas. Parece meio que um compêndio aleatório, um flerte com o cinema mais experimental. Mas falta medo. Embora transite no universo onírico, o longa não tem elementos suficientes para fazer essa transição entre o real e o imaginário. Portanto, fica meio com cara de filme-enganação, estratégia fortemente propagada nos tempos de Bruxa de Blair.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Tudo errado

Não, não é a Gisele Bündchen. Ela pode fazer a propaganda que quiser, para o anunciante que bem entender. Tem o direito de cobrar o cachê que merece.

Não, não é a Gisele Bündchen. Ela chegou aonde chegou por méritos próprios, muito profissionalismo e uma rara beleza. Não puxou o tapete de ninguém, não dormiu com executivos do alto escalão, não usou em causa própria sua fama e sua notoriedade.

Não, não é a Gisele Bündchen. O sucesso de sua carreira internacional deve ser é aplaudido. Não consigo escutar uma sílaba das músicas da Anitta, mas jamais boicotei seu êxito no exterior. Minha dor-de-cotovelo com celebridades para exportação não chega a tanto.

A culpa não é da Gisele Bündchen. Mesmo nascendo loira e rica num país preto e pobre. Mesmo ostentando um trema em seu sobrenome, o que lhe confere a carga elitista de uma nobreza que já não existe mais. Mesmo permanecendo no Brasil só de vez em quando, como se aqui estivesse de férias, a passeio, como turista. De tanto desfilar nas passarelas estrangeiras, das marcas de roupas de grife do mundo inteiro, até vem aos poucos desaprendendo a falar o Português. E daí que namorou o papa-anjo do Leonardo di Caprio? E daí que tentou ser atriz em Hollywood?

Talvez os culpados sejam os empresários brasileiros. Que não medem esforços nem poupam dinheiro para que suas marcas estejam numa evidência gritante, a tal ponto de poderem ser vistas em Marte. Que pagam R$ 10 milhões para a garota-propaganda ficar no camarote por algumas horas bebendo água, e R$ 200 para a atendente servir durante a noite inteira o lúpulo patrocinador aos convidados nesse mesmo evento. Que não enxergam os limites éticos entre sustentar uma boa imagem e promover o desperdício. Que esbanjam fortunas, como aqueles engravatados que lançam cédulas de dinheiro com os dedos num puteiro, mas pagam merreca a toda a sua cadeia produtiva pejotizada, do entregador de engradados de boteco aos marqueteiros de escritório com ar-condicionado. 

Talvez os culpados sejam essa elite brasileira, especificamente os clãs bolsonaristas de meia-dúzia de famílias. Que se metem em enrascadas comerciais, mas são vistos pela sociedade como empreendedores. Que abrem um monte de CNPJ e criam sociedades espúrias, ganhando o bônus de participação nos lucros. De Ambev a Americanas. Hordas de novos-ricos, com sobrenome de cidade criada nas ficções de Dias Gomes. Conseguiram a proeza de trazer o coronel Odorico Paraguaçu de volta à nossa realidade.

Talvez o culpado seja o Governo, que sempre foi uma mãe para essa corja toda. Vem como um salva-vidas socorrer dívidas bilionárias. Acalentar os prejuízos astronômicos, oferecer soluções amigáveis para que esses empresários continuem usufruindo de todas as regalias possíveis. Pessoas que nunca entraram, e jamais precisarão entrar, na fila do seguro-desemprego. Não vão precisar baixar o aplicativo do Auxílio Brasil. Porque a ajuda emergencial para essas operações fraudulentas não vem a conta-gotas, mas traz junto toda uma rede envolvendo bancos, acionistas, linhas de crédito, suporte internacional. Não, esses novos Eikes Batistas nunca vão perder uma noite de sono.

Talvez o culpado seja o foco. O Brasil de ontem colocou os miseráveis como manchete. Hoje, quem ocupa a mídia são os bilionários. E, enquanto não houver alguma retaliação para suas práticas nocivas, eles vão continuar distribuindo cachês estratosféricos para celebridades, em campanhas de produtos que matam a sede mas não acabam com a fome dos 33 milhões de brasileiros.

Talvez o culpado seja o marketing. Que precisa investir muito para que sua marca continue na mente do consumidor e seja amada pelo país. Uma empresa que começa com "Br" de Brasil, mas pouco faz pelos brasileiros. Vende um líquido insípido, com gosto de mijo, feito de restos de plantação de milho, perde feio para as cervejas artesanais, causa dor de cabeça e ainda culmina com a mentira de uma cremosidade que não existe. 

Talvez a culpada seja a boa e velha Propaganda. Que permanece velha, mas já não é tão boa assim. Usando as mesmas fórmulas batidas do fim do século passado. Que dá de ombros para iniciativas de responsabilidade social. Que continua patrocinando apenas gente bonita. Publicidade gasta, financiada por clientes que não aprovam ideias mais criativas. Não enxergam ousadia a um palmo de distância de seu nariz. E fazem mais do mesmo. Necessitando de verbas vultosas para que seu conteúdo medíocre seja minimamente lembrado pelo apreciador de cerveja.

Tá tudo errado. Muita gente tem culpa no cartório desse fiasco que foi o camarote Brahma no Carnaval. Menos a Gisele Bündchen.


O bom marketing

Ultimamente, a gente vem sendo atacado por notícias de empresas, megaempresas e conglomerados passando por situações vexatórias resultantes de uma péssima administração. Livraria Cultura, Lojas Americanas, Lojas Marisa, e a contagem só tende a subir. Pedidos de falência ou recuperação judicial decorrentes de fatores que só mostram que o nosso sistema capitalista predatório naufragou. De inconsistências contábeis a calote em fornecedores. De fusões e aquisições mal sucedidas a processos trabalhistas em curso. De manipulação de dados a assédio moral.

Mais ultimamente ainda, em pleno Carnaval, pudemos assistir ao espetáculo do paradoxo que culminou com uma mistura de sensações entre a alegria e a tristeza. No meio de uma das piores catástrofes históricas provocadas pelas chuvas torrenciais em parte do nosso país, o principal anunciante da mais famosa bebida gelada que serve pra nos refrescar do calor desembolsou R$ 10 milhões para uma beldade aparecer por algumas horas em seu camarote. A iniciativa em si não foi nada proibitiva ou criminosa. Mas fica aqui a indagação da pertinência do gesto. Seria uma verba mal aplicada? Seria o cúmulo da ostentação e do desperdício? Até que ponto podemos considerar ético um cachê milionário diante de notícias diárias de pessoas passando fome? Cifras incalculáveis no mundinho da Propaganda servem pra mostrar quem é que manda nos negócios deste país?

Em meio ao lodaçal de escândalos, com empresas chafurdando na lama de falcatruas, surge um gritinho de esperança nos escombros de todo esse desastre. Viralizou ontem nas redes sociais uma postagem elogiando a atitude corajosa e benfeitora dos proprietários do restaurante Pimenta Rosa, na Barra do Sahy, litoral norte de São Paulo, uma das regiões mais afetadas pelas enchentes. De acordo com o relato, os donos ofereceram comida (almoço e jantar) de graça aos frequentadores. Também disponibilizaram sinal de wi-fi gratuita pois, como sabemos, foi muito difícil a comunicação entre parentes durante o período mais crítico.

A reação de quem leu, me parece, foi quase de um choro tímido, igual a resposta às notícias de pessoas encontradas com vida no meio de tantas outras soterradas. Foi como um brilho de luz que se acendeu na sociedade. Enquanto soubemos que tinha comerciantes vendendo o litro de água por cerca de R$ 100, o casal do restaurante optou pelo diletantismo nesse momento de terras tão úmidas e sentimentos tão áridos. A solidariedade invadiu a ganância. 

O Pimenta Rosa nada mais fez do que usar na divulgação o seu próprio produto. Não apelou às grandes mídias para se passar por empresa inclusiva. Não usou atores globais ou modelos internacionais em sua comunicação. Não fez promoção-relâmpago. Não usou a tragédia como oportunidade para alavancar os negócios. Ninguém produziu posts, cards e carrosseis usando a linguagem dos participantes do BBB. Muito menos coreografaram as dancinhas ridículas do Tik Tok. Apenas fizeram - e muito bem - aquilo que estão acostumados a fazer: servir os clientes. Isso gerou mídia espontânea, coisa disputada a tapas pelas grandes marcas.

Parece que o Pimenta Rosa, nesse momento tão trágico, mandou o capitalismo à merda. Ignorou seu princípio básico - a lei da oferta e da procura - para tentar oferecer um pouco mais de bondade a quem realmente precisou dela. Sem essa tralha de pagamento por aproximação, pix, leitura por QR Code, parcelamento da compra, empréstimo consignado, utilização de pontos de programa de fidelidade, nada. Simplesmente abriram mão da moeda que faz nossa economia girar.

Parabéns aos envolvidos. Pela quantidade de novos simpatizantes e futuros fregueses, o retorno financeiro está garantido. Agora, o que mais conta é o retorno emocional. Longe de mim passar a acreditar na Humanidade. Mas a aparição generosa do Pimenta Rosa no meio da turbulência foi um ponto fora da curva e dos raios.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Desescrever

Percebi hoje que o Facebook mudou o nome da função "desfazer amizade" para "desamigar". Fico aqui imaginando o que motivou tal decisão: a tendência de se encurtar textos de botões, a necessidade da plataforma ser pioneira na criação de neologismos ou simplesmente a vontade de se justificar salários de profissionais que não têm o que fazer e precisam inventar algo pra ocupar seu dia e fazer valer seu holerite.

Seja na forma antiga e extensa, com verbo transitivo direto e objeto direto, ou na forma nova e enxuta, com apenas um verbo novo, a funcionalidade me soa simpática. É uma maneira de apagarmos parte do nosso passado, atitude movida por um senso de arrependimento ou porque precisamos mostrar ao mundo que, agora, somos totalmente diferentes do que éramos 24 horas atrás.

Claro que seria bom demais que a função "undo" estivesse presente em todos os momentos da nossa vida. Já pensou poder apertar os botões Ctrl + Z a cada cagada que a gente faz? Fez uma compra errada, Ctrl + Z. Sem precisar apelar pro Reclame Aqui. Xingou o vizinho e não sabia que ele era policial, Ctrl + Z. Respondeu um SMS pedindo pra você atualizar senha de banco, Ctrl + Z. Eu quase caí nesse golpe na semana passada.

Mas, dentro do seu âmbito de ação, apesar de suas limitações para salvar nossas vidas, o Face ao menos nos oferece esse alívio imediato. E, ainda por cima, de uma forma mais concisa em relação ao longínquo ontem. Como é bom desamigar bolsonaristas. Que leveza nos traz desamigar pessoas que só publicam slides de bom dia feitos em Power Point. Xô, mendigos de Pix. Desamigá-los-ei para dar lugar a indivíduos mais interessantes.

É assim, destruindo nosso passado, que as ferramentas digitais estão nos ensinando a construir nosso futuro. Despagando uma compra feita por impulso pela internet de um massageador de pés que você só vai usar uma vez na vida. Descomparecendo a uma reunião de amigos cada um leva o que vai beber ao lembrar o mico que foi esse encontro antes da pandemia. Desvendo um nudes que alguém te enviou por engano. Desviajando aquele porre que foi o último feriado prolongado com chuva todo dia, com reserva de resort em quarto sem ar-condicionado feita pelo Airbnb. Desestudando os quatro anos de faculdade para exercer uma profissão que não tem nada a ver com você. Desdando aquele presente de aniversário comprado com tanto carinho para o amigo que nunca se lembra do seu. Desnamorando aquela vaca que te traiu. Desescolhendo o Brasil como o melhor país pra se viver. E, em última análise, deslendo este texto que não fecha com um final feliz. 


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Pagode

 - Senha número 384. Três oito quatro!

- Boa tarde. A gente queria registrar nosso filho.

- Pois não. Trouxeram todos os documentos?

- Sim, claro! Tá aqui: RG, CPF, certidão de casamento...

- E qual vai ser o nome dele?

- Pagode Nascimento dos Santos.

- Ah, senhor... aí não vai dar. Não posso registrar esse nome.

- Como não? Nascimento por parte de mãe, Santos por parte de pai. Como assim, não pode?

- Estou me referindo ao primeiro nome. Pagode. É lei. Artigo 2678, parágrafo 36, inciso quarto: fica terminantemente proibido registrar, para pessoas nascidas em território nacional, do sexo masculino ou feminino, nomes e/ou substantivos próprios alusivos, direta ou indiretamente, a palavras e/ou verbetes que façam qualquer tipo de correlação formal e informal a símbolos pátrios da arte e da cultura de nosso país.

- Mas... isso é um absurdo! A gente não tem o Rock? Aquele famoso assistente de palco daquele famoso apresentador de TV? Tem também o Rock lutador de boxe, mas esse é gringo. Não importa, a gente adotou como se fosse nosso. Ah, e tem também a Valsa.

- Valsa?

- Valsirene, na verdade. Lá do bairro. Mas a vizinhança toda chama ela de Valsa.

- Meus senhores... pensem no sofrimento dessa criança quando for maior de idade. O bullying que ela vai sofrer na escola. Na hora da chamada. Quando for servir o Exército...

- Olha, por mim esse país estaria todo dominado por Pagode, Axé, Rock, Punk, Funk, Reggae, Jazz, Xaxado, Rumba, Bolero, Tango, Merengue, Rap, mil Macarenas de mãe solteira... e viva a diversidade! Só não curto muito o Blues. Dá uma tristeza...

- Vocês não estão entendendo. Artigo 4266, parágrafo único: é terminantemente proibido registrar substantivos próprios que, porventura, possam eventualmente acarretar algum dano ou mal à criança recém-nascida, de ordem moral ou social, em seu futuro próximo ou distante, que tragam como consequência direta ou indireta qualquer tipo de trauma ou abalo psicológico em decorrência do significado e definição vocabular de tal verbete.

- Dane-se o verbete!

- Calma, minha senhora. Sabe aquele último dia do mês, quando os funcionários de uma empresa não veem a hora de receber o pagamento? Como é informalmente conhecida essa data?

- Dia de pagode!

- Tá vendo? Vocês gostariam que o nome de seu filho fosse atrelado a uma prática mercantilista exploratória, que pouco valoriza a classe trabalhadora? Vocês gostariam que seu filho fosse lembrado uma única vez por mês?

- É, faz sentido... mas e a nossa liberdade de escolha?

- Senhores... pagode lembra feijoada. Já imaginou o filho de vocês ser obcecado por esse monte de comida, feijão que não acaba mais, carne de porco... pensem na obesidade dele!

- Tem razão. Mas a gente ainda quer que nosso filho seja registrado com um traço de brasilidade.

- Mas, pagode? Senhores... pagode é aquele som alto, que não acaba nunca, incomoda os vizinhos. Já pensou um dia o filho da senhora deixar cair a pipa no quintal da vizinha, ir lá tocar a campainha, e ela sai enfurecida, com toalha amarrada na cabeça porque acabou de sair do banho, olha pro rapaz e diz: quem é que veio atrapalhar a essa hora o que eu tô fazendo? Ah, tinha que ser o Pagode!

- É que...

- Pensem na educação do seu filho. Ele certamente vai frequentar uma escola de alto nível. Garotos e garotas estudando pra balé clássico, música erudita. Aí vem a professora fazer a chamada: João Pedro, Anthony, Clarice, Victoria e... Pagode!

- Tá bom, tá bom. Você nos convenceu. Então qual seria a sua sugestão?

- Bom... se eu fosse vocês, iria de Charleston.


Metáfora

- Doutor, é grave?
- Calma, fica tranquilo. Tomando todos os cuidados necessários e os medicamentos que eu recomendar, isso aí logo, logo vai passar.
- Mas... o que eu tenho, doutor?
- Você foi acometido por um quadro de metáfora aguda. 
- Ai, meu Deus... e agora... é como se... os ponteiros do relógio da minha vida estivessem se movimentando mais rápido... é como se o badalo final estivesse mais próximo!
- Não se preocupe. O que você anda sentindo?
- Sei lá, doutor. Meu coração pulsa com a força de um touro e a velocidade de um cavalo. Meu peito dilacerado inspira e expira os ventos gelados da desilusão. O sangue que jorra em minhas veias se transformou num fluido espesso de lubrificante de segunda categoria. Minhas pernas cansadas parecem levitar sobre a aridez cáustica do nosso solo de esperança.
- Mas e a cabeça, como está?
- O que dizer desse globo espelhado de uma discoteca decadente? Essa bola de cristal rotunda e cintilante já não consegue mais prever o futuro. Só se alimenta do ódio e do desgosto do passado. Frequentemente ela é acometida por flechadas certeiras de um guerreiro medieval em plena batalha.
- Estou me referindo ao psicológico. Como estão suas emoções?
- Ai, doutor... é como se as páginas viradas da minha história estivessem voando para os céus e se esvaindo nas estrelas. Difícil conviver com essa bagunça de quarto de criança. Já não consigo mais controlar as intempéries e as tempestades que nascem sem avisar. Momentos de calmaria, raros como uma joia antiga, têm a duração de um contido aplauso de espetáculo, de tão efêmeros e fugazes. O que reina em minha ignóbil existência é a tormenta dos pássaros, a fúria do cárcere, a ira dos deuses.
- OK, anotado... agora me conte um pouco mais das suas relações. Tá tudo bem com sua família? Fale um pouco do seu relacionamento com sua esposa nos últimos dias.
- Doutor, doutor... o que dizer daquela víbora endiabrada? Todo dia, desde que acordo, ela me despreza tal e qual um cachorro faz com um pé de alface. Ignora tudo o que falo, assim como um advogado de acusação diante das declarações de inocência do réu. O negócio dela é me agredir com os açoites dos seus palavrões. Ela me provoca num tom de voz à altura de uma sirene de fábrica. E na hora de dormir? Eu, procurando o aconchego do ninho, com minha volúpia noturna de um gavião, me aproximo de sua pele macia como algodão, para dar o bote de uma serpente. Enquanto ela, na frigidez de sua nevasca, vira de lado, recusa a oferenda libertina, coisa que nem um mendigo faz diante de uma mísera esmola, e põe-se a dormir. Um sono rápido de coelho escapando da armadilha, porém, acompanhado do ronco de uma orquestra sinfônica dos ursos.
- E seus filhos? Me conta um pouco mais.
- Tenho uma filha, doutor. Uma única filha, o número 1 cravado no centro da moeda de real. Ela é tudo pra mim, do zero ao infinito. O problema é que no fim do ano passado foi morar no exterior. A cria decidiu abandonar o conforto do lar que seus algozes proporcionaram durante dezenas de giros da Terra em torno do Sol. Foi estudar Música. Foi aprender com os maestros da vida as duras partituras de crescer e se tornar mulher. De vez em quando a gente se fala. De vez em quando eu vejo de perto seu rosto tão longe quanto a colina de um reino das fadas.
- Perfeito. Só pra concluir: como está seu cocô?
- Desculpa, doutor... preciso responder essa pergunta íntima e secreta de um ritual maçônico? Olha, os pedaços terminais do alimento do meu corpo e da minha alma vão bem, obrigado. Sólidos e maciços como uma rocha, escuros como o azeviche do ébano.
- Então, tá. Vou prescrever essa receita aqui. Tomar duas vezes ao dia, até sentir que os sintomas estão diminuindo. Depois a gente marca uma nova consulta pra eu te avaliar. Ah, e não esqueça: alimentos saudáveis, com pouca gordura, beba bastante água durante o dia, exercícios físicos e boas horas de sono é fundamental.
- Perfeito, doutor. Muito obrigado. Ah, a saída: fica pro lado do comunismo ou do capitalismo?
 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Como fazer um filme pra ganhar Oscar

- Segunda Guerra Mundial. Ótimo tema pra levar a estatueta. Esse assunto sempre comove os velhinhos da Academia. Pode ser um documentários sobre as vítimas e sobreviventes do Holocausto, ou um filme de ficção sobre os campos de concentração, ou sobre os países aliados, refugiados de guerra que ajudaram os judeus, enfim... Vale lembrar que metade dos produtores executivos de Hollywood é semita e a outra metade é de italianos convertidos ao judaísmo.

- Achou o assunto pesado ou batido? Tudo bem. Faz um filme sobre as lembranças de um judeu adolescente nos bairros suburbanos de Nova York que tá valendo.

- Ainda sobre o tema: dê preferência a ator goy para o papel principal. Presta atenção, a concorrência já saiu na frente. Anthony Hopkins, Paul Dano, Stanley Tucci, Mark Strong... Nada de me escalar Michael Rappaport ou Rob Schneider. Se conseguir fazer o Jackie Chan parecer um rabino convincente, o prêmio é seu.

- Temas relacionados aos negros também é uma boa opção. O cinema vem fazendo uma retratação histórica a fim de se tentar corrigir o racismo estrutural. A escolha é livre. Pode ser um filme sobre a Guerra de Secessão, ataques da KKK em grupos de coral gospel ou até mesmo a biografia de um jogador de basquete que sofreu preconceitos.

- Nem pense em gastar muito dinheiro com orquestra. O Oscar de Melhor Trilha já é do John Williams. Mantenha o foco em outras categorias.

- Categorias secundárias, como figurino ou maquiagem, podem ser uma boa estratégia pra se sair vencedor da cerimônia. Mas nada de usar as mesmas táticas do passado, como deixar o Brendan Fraser gordo ou a Charlize Theron feia. A academia já percebeu os truques dessa armadilha. Fique esperto. Próteses de silicone tem em qualquer filme B de terror. Isso você encontra até na 25 de Março, ainda mais que estamos perto do Carnaval. O lance aqui é deixar um ator MUITO parecido com o personagem real do filme. A tal ponto de até ele mesmo se confundir. Escalar o Will Ferrell pro papel do Chad Smith (batera do Red Hot Chili Peppers) seria muita preguiça de sua parte. Se o seu negócio é encarar desafios, faça o Dwayne Johnson ficar idêntico ao Woody Allen.

- Nunca, jamais, em hipótese alguma cogite escalar atores que já receberam precocemente o Oscar e tiveram suas carreiras enterradas por causa disso. Cuba Gooding Jr., Marisa Tomei, Hillary Swank, nem pensar,. Dá um azar da porra.

- Escolha sempre um ator da modinha, que daqui a alguns anos (ou meses) passará a ser tendência. E logo depois será esquecido, não importa seu talento. Jack Nicholson estava sempre na primeira fileira em todas as celebrações, estampando seus óculos escuros e seu sorriso sarcástico. Mas quem se lembra dele na era digital? Leonardo Di Caprio também já era. Bradley Cooper também já teve sua chance. Pense em algo como Timothée Chalamet um sorvete coloret ou a pseudoesquisitaça Millie Bobby Brown.

- Esportes. Taí um outro tema que não é garantia de ganho, mas com certeza entra na lista dos indicados. Aqui é vale-tudo. E não estou me referindo à modalidade de socos e pontapés. Pode ser uma biografia de algum atleta famosíssimo, como Pelé, Maradona ou Serginho Chulapa. Mas pode ser também uma ficção sobre algum sujeito do qual ninguém ouviu falar. Um ex-drogado que vira lutador de boxe, uma tenista pobre e humilde que vai a pé pra escola durante sua infância, ou um jogador de beisebol que cai na bebedeira depois de virar figurinha rara. Só pra lembrar: Bolsonaro nunca foi atleta, tá? Se quiser ser mais criativo, dá uma pesquisada sobre personalidades do curling ou sobre a corrida de mula no Arkansas. Não importa. Mas uma coisa é certa: ao final do filme, durante a exibição dos créditos, é obrigatória a presença de fotos, imagens e som de rádio antigo do verdadeiro atleta.

- Roteiro é outra coisa muito importante. Dê bastante atenção e um cuidado especial aos diálogos. Ultimamente a Academia tem preferido falas densas, cheias de conteúdo. Nem ouse trazer de volta a nouvelle vague e suas conversas do dia a dia. Ou aquele olhar contemplativo e mudo de um Louis Garrel da vida. Esqueça de uma vez por todas o silêncio dos planos do Sokurov ou do Béla Tarr. Aqui o negócio é sério. Nada de frases vazias como "tá tarde, vou dormir" ou "tem cigarro?". Até porque cigarro virou um palavrão tão feio quanto Weinstein na indústria da Sétima Arte. Aqui você vai precisar contratar um roteirista que ganha por letra. Cada fala dos protagonistas deve conter um resumo da história dos Estados Unidos. Faça as associações mais complexas possíveis. Se o tema for um vazamento de informações do jornalismo, despeje toda sua verve mencionando Watergate e vacinas feitas à base de prótons. Não existe vacina de prótons, mas essa é a ideia. Ninguém vai ficar entrando no Google dentro do cinema a cada discurso rebuscado da Jennifer Lawrence. Se o assunto for os escândalos nos bastidores de Hollywood, faça uma correlação entre pedofilia e extinção das abelhas nos países de clima equatorial. De preferência, com falas na velocidade Tatá Werneck, que é pro público não entender porra nenhuma e acreditar em tudo o que está ouvindo.

- Procure, sempre que possível, priorizar temas universais ao invés de assuntos mais regionais ou específicos. Fale sobre aquilo que todo mundo conhece ou entende, como amor, bullying ou vontade súbita de comer chocolate antes de dormir. Isso pode gerar mais empatia. Se houver mesmo uma intenção de tratar de assuntos mais herméticos, atente-se a fatos que foram mundialmente divulgados ou ganharam um destaque na mídia internacional, como a Guerra de Ruanda, os ataques terroristas em Brasília ou a traição do namorado da Shakira.