sexta-feira, 23 de junho de 2023

Ao Seu Lado

Um jogador lesionado de rúgbi do time da liga principal é selecionado para jogar num time da liga secundária como parte de sua recuperação. Em determinado momento, ele se apaixona por um outro jogador da mesma equipe. Porém, ambos são casados e tentam esconder essa relação, não só de seus próprios parceiros, mas também dos companheiros do time. 

Apesar de ser lançado no mês do Orgulho LGBTQIA+, o filme não coloca a homossexualidade como uma questão. Diferentemente de outros filmes lançados comercialmente, esse tema não é tratado como um tabu. Todos os demais jogadores apresentados na tela (ou pelo menos a maioria deles) também são gays. Convivem em ambientes liberais, bares e boates temáticas. Nesse aspecto, não existem conflitos.

O que o filme coloca em xeque é a traição, a infidelidade conjugal e suas consequências. Valores que poderiam ser retratados, inclusive, em relações heterossexuais. 

Apresentar ou vender esse longa como "filme de nicho" pode até despertar  uma curiosidade no espectador, que eventualmente tende a criar expectativas sobre assuntos específicos ligados ao tema. Por outro lado, corre o risco de cair no ostracismo e ser ignorado pelo grande público, já que nada mais é do que "mais um filme de amor proibido".

E sim, o filme não avança em maiores dilemas a não ser o que está descrito na sinopse. A cena inicial, uma disputa acirrada pela bola durante um jogo, atletas se sujando de lama do gramado, escorregando, caindo, pode até ter em si uma força bruta. Mas essa força não se sustenta. Ao Seu Lado é um filme melodramático, que exagera um pouco nas tintas e deixa essa potência para segundo plano.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Três Mulheres: Uma Esperança

Nos dias finais da Segunda Guerra Mundial, soldados alemães abandonam um trem de deportação. Os judeus dentro do comboio serviriam de moeda de troca para serem negociados com o exército russo. A partir dessa realidade, o filme traça o improvável encontro de três frentes da guerra, sob o protagonismo feminino. A judia holandesa Simone, que precisa cuidar do seu marido que contraiu febre tifoide; a desconfiada alemã Winnie, que viu sua mãe ser morta pelos soldados russos; e a atiradora russa Vera.

Trata-se de um filme denso, que aborda um tema árido, embora batido nas telonas. O que ele traz de novo é o foco: os personagens masculinos ocupam papeis secundários. E o que torna o filme ainda mais interessante é que a relação entre as mulheres se dá de forma circunstancial. Não há, em princípio, nenhuma afinidade que as faz se unirem.

Sob o olhar frio e meticuloso da diretora e roteirista holandesa Saskia Diesing, Três Mulheres busca o tempo todo encontrar na tela algum refúgio, alguma brecha para a escapatória diante de um cenário de morte. Embora a guerra esteja prestes a acabar, existe um resíduo moribundo que a diretora faz questão de estampar. É um ato de sobrevivência pós-finale. Nesse sentido, o filme faz diversas trocas de ambiente, como se colocasse na pele do espectador a sensação de fuga e de reencontro.


Meu Vizinho Adolf

Segunda Guerra Mundial. Uma família judia, aparentemente feliz, se agrupa para tirar uma foto. Um deles gosta de jogar xadrez. A cena mostra a boa relação familiar, em contraponto às dificuldades mecânicas de se tirar fotografia naquela época.

Corta para os anos 60, Chile. O enxadrista, que parece ser o único sobrevivente da família durante o Holocausto, mora sozinho numa casa vazia. É recluso e mal-humorado. De repente, começa a desconfiar que o vizinho recém-chegado é Adolf Hitler e recorre ao consulado de Israel para fazer a denúncia. Não sendo levado a sério, inicia uma investigação independente para provar sua teoria. Quando as evidências ainda parecem inconclusivas, ele é forçado a se relacionar com o suposto inimigo, igualmente fechado e ranzinza, para obter novas provas.

Até este momento, em que o relacionamento entre ambos parece inóspito, Meu Vizinho Adolf tenta trazer um tom de comédia. Talvez até demais. Não fosse a bela atuação de David Hayman e Udo Kier, o filme correria sérios riscos de se tornar caricato.

Aos poucos, a habilidade do diretor e roteirista Leon Prudovsky transforma o cômico registro desses atritos num material um pouco mais sensível. O atrito e a animosidade de ambos vai derretendo, e o tratamento dado ao filme valoriza a construção dessa improvável amizade. 

sábado, 29 de abril de 2023

O Pastor e o Guerrilheiro

Em seu novo filme, o diretor José Eduardo Belmonte traz de forma mais direta o tema da ditadura militar. Sem manter uma ordem cronológica, vai até a década de 1970, quando um guerrilheiro comunista se encontra na mesma cela que um cristão evangélico, preso por engano. Em meio a torturas e conflitos ideológicos, eles se ajudam e marcam um encontro para o réveillon de 2000. Nos últimos dias do milênio, Juliana, ativista estudantil e filha ilegítima de um coronel que acabara de se suicidar, é surpreendida com uma herança deixada para ela. Por meio de um livro encontrado na casa do coronel, ela descobre que seu pai foi o torturador dos dois presos.

Apesar da contundência do tema, os anos de chumbo servem como pano de fundo para permear esses caminhos dos protagonistas. O filme, claro, tem substância. Mostra a união de dois prisioneiros, marcada justamente por suas diferenças políticas e religiosas. Traz o sentimento de culpa de quem fez parte do regime militar. Mesmo assim, O Pastor e o Guerrilheiro não carrega em si um traço meramente político. A condução da trama, com histórias paralelas, encontros e desencontros, faz a obra se aproximar de um romance. Belmonte mantém sua postura crítica em relação ao país, mas conclui um filme menos orgânico em comparação com seus primeiros longas. 


Morte a Pinochet

Com o sucesso do oscarizável Argentina, 1985, chega ao streaming a versão chilena sobre o período da ditadura militar. Em setembro de 1986, um grupo de jovens criou um plano para matar o ditador Augusto Pinochet. O professor de educação física e integrante da luta armada Ramiro, a psicóloga Tamara, que abandonou a família para viver na clandestinidade, tornando-se comandante da Frente Patriótica, e Sasha, nascida na favela de Santiago, marcam o ataque armado para uma tarde de domingo. 

Baseado na história real de um ataque fracassado por um braço armado do Partido Comunista Chileno, o filme acompanha o clima tenso de todo o planejamento da ação. Diferentemente do filme argentino, que insere alguns diálogos cômicos para dar um ritmo mais leve, aqui temos a seriedade como norte do começo ao fim. O diretor Juan Ignacio Sabatini não dá trégua, trazendo uma sensação quase de tempo real. Embora trate de um assunto importante e pouco explorado, o filme exagera no tom sisudo. Opta pela secura e objetividade, o que é um bem para a arte. Mas corre o risco de deixar seu trabalho um pouco cansativo.


sexta-feira, 14 de abril de 2023

Desaprendendo

A partir da próxima segunda-feira a gente comemora a Semana do Índio. Mas não podemos mais chamar índio de índio. Índio é quem nasce na Índia. Devemos trocar por indígena. Ou povos originários.

Também não podemos mais falar sobre morador de rua. Rua não é moradia. O correto é, em 2023, pessoa em situação de rua.

Já nem sei mais como devo me referir aos indivíduos de raça negra. Antigamente, chamá-los de preto era ofensivo, quase um palavrão. Hoje me parece que é um termo mais aceito. Assim como, creio eu, não deve pegar mal citar africanos ou afrodescendentes. O problema é quando queremos nos referir ao povo miscigenado, ou seja, a maioria da população brasileira. Antes a gente recorria a eufemismos, vocábulos mais brandos. "Moreninho" hoje, nem pensar. Mulato, embora aceito pelo vernáculo nesse sentido, vem sendo proibido pois faz uma analogia aos negros escravos que conduziam as mulas dos patrões. Ou traz a semelhança dessa palavra como um cruzamento de espécie animal. Sei lá. E não dá pra chamar um mestiço de mula. Nem de vira-lata. Se não me engano, pardo parece ser um termo aceito e não ofensivo. Isso hoje. Amanhã é capaz da Associação Internacional dos Gastronomistas vetar seu uso por fazer lembrar o molho pardo, rebaixando o indivíduo de tom azeviche a um mero ornato ao paladar.

Também não podemos mais usar as simbologias da nossa língua que evocam outros campos semânticos. Mesmo que a cor negra possa servir de metáfora para a noite, as trevas, a escuridão. "A situação está preta", por exemplo. Esquece. Proibidíssimo. O lado negro da força foi substituído pelo lado obscuro da força quando a Princesa Léia ainda era viva.

Pouco tempo atrás, uma integrante de uma comunidade de redes sociais trouxe um texto falando sobre os perigos de se aplicar, hoje em dia, o uso da locução criado-mudo. Isso trazia os tempos da escravidão, em que os negros serviçais trabalhavam nas casas dos senhores de engenho desde que ficassem absolutamente calados. Caso contrário, seriam severamente castigados e forçados a voltar a trabalhar na lavoura. Era mais ou menos isso. Esse texto sugere que troquemos por mesa de cabeceira ou algo que o valha. Até aí, tudo bem. Mas estamos no inóspito ambiente das mídias sociais, lembra? Nossa amiga foi rechaçada, avacalhada. (Avacalhada pode? Não faz lembrar o ruminante bovino leiteiro?). Comentaram que isso é tudo mimimi. Ou mumumu, sei lá. Os mais exaltados trouxeram verbetes ainda piores. A tal ponto de deixar a Dercy Gonçalves ruborizada. Claro que nossa amiga, que apenas quis repassar uma linha de pensamento sem tomar partido disso, se sentiu ofendida e preferiu sair da insolente comunidade.

Também não sei como me posicionar diante de um homossexual. Bicha antigamente era quase como "bom dia", de tão leve. Hoje não é mais. Veado então, é crime inafiançável. Só os veados podem chamar veado de veado. Gay me parece um termo isentão. Mas a Língua Portuguesa é muito rica. Se ficarmos apenas em dois ou três palavras é como se estivéssemos jogando dinheiro fora. Eu queria muito continuar usando fanchono, boiola, baitola, fresco, enrustido, sodomita, pederasta, maricas. Definitivamente, não posso. Além de darem um tom pejorativo ao discurso, generalizam demais essa orientação sexual. Com tantas variantes e subvariantes, que quase ocupam o teclado inteiro, precisamos ser mais específicos ao nos dirigirmos a uma pessoa que, por exemplo, supostamente, hipoteticamente, nasceu homem, se veste de mulher, está na fila de cirurgia do SUS, mas odeia fazer sexo. E orientação sexual também me deixa um pouco confuso. Um homossexual não é "orientado" a ser gay. Isso é meio coisa de coach. Também não é uma opção sexual, pelo contrário. Ninguém "opta" por seguir uma determinada linha sexual, como se isso fosse um partido político. Ou clica na opção "correta" dentre várias alternativas possíveis, como se fosse um exame de vestibular. A sexualidade de cada um está diretamente ligada aos impulsos, aos desejos. Taí... desejo sexual. Acho que doravante vou começar a usar essa terminologia.

Puta. Outra palavra a ser banida do meu repertório vocabular. É um dos termos que mais tem sinônimos no dicionário Aurélio, junto com cachaça. E praticamente todos foram vetados, a não ser que você queira ganhar uma legião de haters. Difícil imaginar, na nossa linguagem binária do futuro quase presente, como devemos evocar as prostitutas. Mulher de vida fácil, com certeza não. Não deve ser nada fácil ficar trepando por vários minutos debaixo de um gordo peludo, suado e fedido.

Por falar nisso, gordo é outra palavra que atravessou o sinal amarelo. Se por acaso alguém fizer uma leitura apressada deste meu opúsculo, coisa que mais acontece nas eras do read fast, die young, é provável que eu seja denunciado por gordofobia. Obeso talvez seja o substituto mais testado e aprovado pela Liga das Senhoras Católicas. Pelas comissões, tribunais e juízes do Facebook. Mas então, o que fazer com opulento? Anafado? Adiposo? Rotundo? Chorudo? Gorducho, leitoado, balofo? Joga-se tudo no lixo, bem como embalagem de bacon em tiras?

No começo do ano, tive sérias dificuldades no diálogo com uma atendente de banco. Recebi uma carta (sim, carta impressa, coisa que também deve cair em desuso, junto com quase todos os nossos alfarrábios linguísticos) sobre meu plano de previdência privada. A boa notícia: eu já posso começar a receber os dividendos dessa longeva contribuição. A má notícia: isso denota o quão estou velho, desgastado, caquético, senil, aposentado, tão inútil pra sociedade quanto os verbetes supracitados. Deduzi que o que deveria fazer é resgatar os valores para ter direito ao benefício. Só depois de muita conversa truncada entendi que resgate é uma coisa, migração é outra. O correto seria transformar o plano em renda. Daí fiquei me lembrando da época em que trabalhava numa agência de Propaganda com foco em criação de programas de fidelização. O que a gente mais falava era resgate de pontos. Coisa que todo mundo entende. Desde um sócio do programa Smiles até o juntador de Stix do Pão de Açúcar. Até que num belo e formoso dia um dos clientes entendeu que a gente devia mudar tudo. Resgate é uma palavra que remete a socorro, emergência, SOS, gente ferida, gente morrendo.

É deveras complicado pra mim cancelar lexemas para não ser cancelado. Eles sempre foram meus melhores amigos. Não consigo escrever por subterfúgios. Por abreviações consonantais. Por emojis. Não sei mais como me dirigir às pessoas, já que entramos na era do index palabrorum proibitorum. Perdemos completamente nossa identidade como indivíduo e como sociedade. Já que esse compêndio foi condenado e julgado à prisão perpétua, rogo para que ao menos recebam um funeral digno antes de agonizarem no calabouço do ostracismo e do desprezo.


quarta-feira, 29 de março de 2023

Skinamarink: Canção de Ninar

Vendido como filme de terror, e viralizado nas redes sociais, o primeiro longa do diretor canadense Kyle Edward Ball mais promete do que cumpre. Tudo é muito sugerido, não há cenas explícitas. Pelo contrário. Analisado friamente, mais parece uma colagem de imagens aleatórias.

Tudo se passa no interior de uma casa, à noite. Dois irmãos pequenos cochicham entre si porque acham que existe uma ameaça maligna em busca deles. Objetos da casa somem de repente. O único contato com o mundo real, perceptível ao espectador, é uma TV ligada passando desenhos animados antigos. 

Se por um lado o diretor escapa das fórmulas prontas do gênero, que traz à exaustão rostos deformados e muito barulho repentino pra criar o susto, por outro ele derrapa na falta de consistência e coalisão entre as cenas. Parece meio que um compêndio aleatório, um flerte com o cinema mais experimental. Mas falta medo. Embora transite no universo onírico, o longa não tem elementos suficientes para fazer essa transição entre o real e o imaginário. Portanto, fica meio com cara de filme-enganação, estratégia fortemente propagada nos tempos de Bruxa de Blair.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Tudo errado

Não, não é a Gisele Bündchen. Ela pode fazer a propaganda que quiser, para o anunciante que bem entender. Tem o direito de cobrar o cachê que merece.

Não, não é a Gisele Bündchen. Ela chegou aonde chegou por méritos próprios, muito profissionalismo e uma rara beleza. Não puxou o tapete de ninguém, não dormiu com executivos do alto escalão, não usou em causa própria sua fama e sua notoriedade.

Não, não é a Gisele Bündchen. O sucesso de sua carreira internacional deve ser é aplaudido. Não consigo escutar uma sílaba das músicas da Anitta, mas jamais boicotei seu êxito no exterior. Minha dor-de-cotovelo com celebridades para exportação não chega a tanto.

A culpa não é da Gisele Bündchen. Mesmo nascendo loira e rica num país preto e pobre. Mesmo ostentando um trema em seu sobrenome, o que lhe confere a carga elitista de uma nobreza que já não existe mais. Mesmo permanecendo no Brasil só de vez em quando, como se aqui estivesse de férias, a passeio, como turista. De tanto desfilar nas passarelas estrangeiras, das marcas de roupas de grife do mundo inteiro, até vem aos poucos desaprendendo a falar o Português. E daí que namorou o papa-anjo do Leonardo di Caprio? E daí que tentou ser atriz em Hollywood?

Talvez os culpados sejam os empresários brasileiros. Que não medem esforços nem poupam dinheiro para que suas marcas estejam numa evidência gritante, a tal ponto de poderem ser vistas em Marte. Que pagam R$ 10 milhões para a garota-propaganda ficar no camarote por algumas horas bebendo água, e R$ 200 para a atendente servir durante a noite inteira o lúpulo patrocinador aos convidados nesse mesmo evento. Que não enxergam os limites éticos entre sustentar uma boa imagem e promover o desperdício. Que esbanjam fortunas, como aqueles engravatados que lançam cédulas de dinheiro com os dedos num puteiro, mas pagam merreca a toda a sua cadeia produtiva pejotizada, do entregador de engradados de boteco aos marqueteiros de escritório com ar-condicionado. 

Talvez os culpados sejam essa elite brasileira, especificamente os clãs bolsonaristas de meia-dúzia de famílias. Que se metem em enrascadas comerciais, mas são vistos pela sociedade como empreendedores. Que abrem um monte de CNPJ e criam sociedades espúrias, ganhando o bônus de participação nos lucros. De Ambev a Americanas. Hordas de novos-ricos, com sobrenome de cidade criada nas ficções de Dias Gomes. Conseguiram a proeza de trazer o coronel Odorico Paraguaçu de volta à nossa realidade.

Talvez o culpado seja o Governo, que sempre foi uma mãe para essa corja toda. Vem como um salva-vidas socorrer dívidas bilionárias. Acalentar os prejuízos astronômicos, oferecer soluções amigáveis para que esses empresários continuem usufruindo de todas as regalias possíveis. Pessoas que nunca entraram, e jamais precisarão entrar, na fila do seguro-desemprego. Não vão precisar baixar o aplicativo do Auxílio Brasil. Porque a ajuda emergencial para essas operações fraudulentas não vem a conta-gotas, mas traz junto toda uma rede envolvendo bancos, acionistas, linhas de crédito, suporte internacional. Não, esses novos Eikes Batistas nunca vão perder uma noite de sono.

Talvez o culpado seja o foco. O Brasil de ontem colocou os miseráveis como manchete. Hoje, quem ocupa a mídia são os bilionários. E, enquanto não houver alguma retaliação para suas práticas nocivas, eles vão continuar distribuindo cachês estratosféricos para celebridades, em campanhas de produtos que matam a sede mas não acabam com a fome dos 33 milhões de brasileiros.

Talvez o culpado seja o marketing. Que precisa investir muito para que sua marca continue na mente do consumidor e seja amada pelo país. Uma empresa que começa com "Br" de Brasil, mas pouco faz pelos brasileiros. Vende um líquido insípido, com gosto de mijo, feito de restos de plantação de milho, perde feio para as cervejas artesanais, causa dor de cabeça e ainda culmina com a mentira de uma cremosidade que não existe. 

Talvez a culpada seja a boa e velha Propaganda. Que permanece velha, mas já não é tão boa assim. Usando as mesmas fórmulas batidas do fim do século passado. Que dá de ombros para iniciativas de responsabilidade social. Que continua patrocinando apenas gente bonita. Publicidade gasta, financiada por clientes que não aprovam ideias mais criativas. Não enxergam ousadia a um palmo de distância de seu nariz. E fazem mais do mesmo. Necessitando de verbas vultosas para que seu conteúdo medíocre seja minimamente lembrado pelo apreciador de cerveja.

Tá tudo errado. Muita gente tem culpa no cartório desse fiasco que foi o camarote Brahma no Carnaval. Menos a Gisele Bündchen.


O bom marketing

Ultimamente, a gente vem sendo atacado por notícias de empresas, megaempresas e conglomerados passando por situações vexatórias resultantes de uma péssima administração. Livraria Cultura, Lojas Americanas, Lojas Marisa, e a contagem só tende a subir. Pedidos de falência ou recuperação judicial decorrentes de fatores que só mostram que o nosso sistema capitalista predatório naufragou. De inconsistências contábeis a calote em fornecedores. De fusões e aquisições mal sucedidas a processos trabalhistas em curso. De manipulação de dados a assédio moral.

Mais ultimamente ainda, em pleno Carnaval, pudemos assistir ao espetáculo do paradoxo que culminou com uma mistura de sensações entre a alegria e a tristeza. No meio de uma das piores catástrofes históricas provocadas pelas chuvas torrenciais em parte do nosso país, o principal anunciante da mais famosa bebida gelada que serve pra nos refrescar do calor desembolsou R$ 10 milhões para uma beldade aparecer por algumas horas em seu camarote. A iniciativa em si não foi nada proibitiva ou criminosa. Mas fica aqui a indagação da pertinência do gesto. Seria uma verba mal aplicada? Seria o cúmulo da ostentação e do desperdício? Até que ponto podemos considerar ético um cachê milionário diante de notícias diárias de pessoas passando fome? Cifras incalculáveis no mundinho da Propaganda servem pra mostrar quem é que manda nos negócios deste país?

Em meio ao lodaçal de escândalos, com empresas chafurdando na lama de falcatruas, surge um gritinho de esperança nos escombros de todo esse desastre. Viralizou ontem nas redes sociais uma postagem elogiando a atitude corajosa e benfeitora dos proprietários do restaurante Pimenta Rosa, na Barra do Sahy, litoral norte de São Paulo, uma das regiões mais afetadas pelas enchentes. De acordo com o relato, os donos ofereceram comida (almoço e jantar) de graça aos frequentadores. Também disponibilizaram sinal de wi-fi gratuita pois, como sabemos, foi muito difícil a comunicação entre parentes durante o período mais crítico.

A reação de quem leu, me parece, foi quase de um choro tímido, igual a resposta às notícias de pessoas encontradas com vida no meio de tantas outras soterradas. Foi como um brilho de luz que se acendeu na sociedade. Enquanto soubemos que tinha comerciantes vendendo o litro de água por cerca de R$ 100, o casal do restaurante optou pelo diletantismo nesse momento de terras tão úmidas e sentimentos tão áridos. A solidariedade invadiu a ganância. 

O Pimenta Rosa nada mais fez do que usar na divulgação o seu próprio produto. Não apelou às grandes mídias para se passar por empresa inclusiva. Não usou atores globais ou modelos internacionais em sua comunicação. Não fez promoção-relâmpago. Não usou a tragédia como oportunidade para alavancar os negócios. Ninguém produziu posts, cards e carrosseis usando a linguagem dos participantes do BBB. Muito menos coreografaram as dancinhas ridículas do Tik Tok. Apenas fizeram - e muito bem - aquilo que estão acostumados a fazer: servir os clientes. Isso gerou mídia espontânea, coisa disputada a tapas pelas grandes marcas.

Parece que o Pimenta Rosa, nesse momento tão trágico, mandou o capitalismo à merda. Ignorou seu princípio básico - a lei da oferta e da procura - para tentar oferecer um pouco mais de bondade a quem realmente precisou dela. Sem essa tralha de pagamento por aproximação, pix, leitura por QR Code, parcelamento da compra, empréstimo consignado, utilização de pontos de programa de fidelidade, nada. Simplesmente abriram mão da moeda que faz nossa economia girar.

Parabéns aos envolvidos. Pela quantidade de novos simpatizantes e futuros fregueses, o retorno financeiro está garantido. Agora, o que mais conta é o retorno emocional. Longe de mim passar a acreditar na Humanidade. Mas a aparição generosa do Pimenta Rosa no meio da turbulência foi um ponto fora da curva e dos raios.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Desescrever

Percebi hoje que o Facebook mudou o nome da função "desfazer amizade" para "desamigar". Fico aqui imaginando o que motivou tal decisão: a tendência de se encurtar textos de botões, a necessidade da plataforma ser pioneira na criação de neologismos ou simplesmente a vontade de se justificar salários de profissionais que não têm o que fazer e precisam inventar algo pra ocupar seu dia e fazer valer seu holerite.

Seja na forma antiga e extensa, com verbo transitivo direto e objeto direto, ou na forma nova e enxuta, com apenas um verbo novo, a funcionalidade me soa simpática. É uma maneira de apagarmos parte do nosso passado, atitude movida por um senso de arrependimento ou porque precisamos mostrar ao mundo que, agora, somos totalmente diferentes do que éramos 24 horas atrás.

Claro que seria bom demais que a função "undo" estivesse presente em todos os momentos da nossa vida. Já pensou poder apertar os botões Ctrl + Z a cada cagada que a gente faz? Fez uma compra errada, Ctrl + Z. Sem precisar apelar pro Reclame Aqui. Xingou o vizinho e não sabia que ele era policial, Ctrl + Z. Respondeu um SMS pedindo pra você atualizar senha de banco, Ctrl + Z. Eu quase caí nesse golpe na semana passada.

Mas, dentro do seu âmbito de ação, apesar de suas limitações para salvar nossas vidas, o Face ao menos nos oferece esse alívio imediato. E, ainda por cima, de uma forma mais concisa em relação ao longínquo ontem. Como é bom desamigar bolsonaristas. Que leveza nos traz desamigar pessoas que só publicam slides de bom dia feitos em Power Point. Xô, mendigos de Pix. Desamigá-los-ei para dar lugar a indivíduos mais interessantes.

É assim, destruindo nosso passado, que as ferramentas digitais estão nos ensinando a construir nosso futuro. Despagando uma compra feita por impulso pela internet de um massageador de pés que você só vai usar uma vez na vida. Descomparecendo a uma reunião de amigos cada um leva o que vai beber ao lembrar o mico que foi esse encontro antes da pandemia. Desvendo um nudes que alguém te enviou por engano. Desviajando aquele porre que foi o último feriado prolongado com chuva todo dia, com reserva de resort em quarto sem ar-condicionado feita pelo Airbnb. Desestudando os quatro anos de faculdade para exercer uma profissão que não tem nada a ver com você. Desdando aquele presente de aniversário comprado com tanto carinho para o amigo que nunca se lembra do seu. Desnamorando aquela vaca que te traiu. Desescolhendo o Brasil como o melhor país pra se viver. E, em última análise, deslendo este texto que não fecha com um final feliz.